terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A mitologia de Tolkien e O Senhor dos Anéis - muito além da mera estória de bem vs mal.

Longe de mim querer abordar toda a riqueza e as nuances da vasta mitologia tolkieana numa mera postagem deste blog. Meu objetivo não é esse. Focarei em apenas dois aspectos; um mais relacionado a mitologia em si (ou parte dela, mais especificamente a gênese de Eä - o universo) e outro mais relacionado a um problema atual muito bem abordado por Tolkien em suas obras O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Adianto que o que aqui será exposto não se trata de um trabalho rigorosamente baseado em estudos profundos, pois não me proponho a fazer algo similar a um trabalho acadêmico ou muito menos provar nada; quero apenas compartilhar alguns de meus devaneios a respeito dessa grande obra do professor Tolkien, baseando-se em minhas interpretações que nem de longe pretendem ser as únicas corretas.


Começemos com um dos aspectos mais belos da mitologia tolkieana que é a concepção da mesma sobre a gênese do universo ou de Eä. Para situar melhor, vou tentar reproduzir, da maneira mais resumida possível, os trechos mais importantes, para nossa análise, das duas primeiras partes d'O Silmarillion: Ainulindalë (A Música dos Ainur) e Valaquenta (Relato dos Valar). Destacarei em negrito alguns trechos de maior relevância. Os trechos entre aspas são citações diretas do livro e os trechos sem aspas são citações indiretas do livro que eu resumi, por amor a brevidade.


A Música dos Ainur


"Havia Eru, o Único, que em Arda é chamado de Ilúvatar. Ele criou primeiro os Ainur, os Sagrados, gerados por seu pensamento, e eles lhe faziam companhia antes que tudo o mais fosse criado. E ele lhes falou, propondo-lhes temas musicais; e eles cantaram em sua presença, e ele se alegrou. [...] E aconteceu de Ilúvatar reunir todos os Ainur e lhes indicar um tema poderoso[...] Disse-lhes então Ilúvatar: - A partir do tema que lhes indiquei, desejo agora que criem juntos, em harmonia, uma Música Magnífica [...] Eu me sentarei para escutar; e me alegrarei, pois, através de vocês, uma grande beleza terá sido despertada em forma de melodia. E então as vozes dos Ainur [...] começaram a dar forma ao tema de Ilúvatar; e surgiu um som de melodias em eterna mutação." Neste momento, quando na música não havia falha, Melkor, aquele que dentre os Ainur possuia maior poder e conhecimento, entremeou motivos de sua própria imaginação que não estavam em harmonia com o tema de Ilúvatar, procurando aumentar o poder e a glória do papel a ele designado. "Alguns desses pensamentos ele agora entrelaçava em sua música, e logo a dissonância surgiu ao seu redor. [...] Espalhou-se então cada vez mais a dissonância de Melkor, e as melodias soçobraram num mar de sons turbulentos." Ilúvatar então fez surgir novo tema em meio a tormenta, "Mas a dissonância de Melkor cresceu em tumulto e o enfrentou". Enfim, Ilúvatar fez crescer um terceiro tema em meio a confusão, que "não podia ser subjugado e acumulava poder e profundidade". E então havia duas músicas evoluindo, totalmente díspares: uma profunda, vasta e bela, mas lenta e mesclada a uma tristeza incomensurável, na qual sua beleza tivera principalmente origem. A outra havia adquirido unidade própria, mas era alta, fútil e infindavelmente repetitiva; tinha pouca harmonia e "procurava abafar a outra música pela violência de sua voz, mas suas notas mais triunfais pareciam ser adotadas pela outra e entremeadas em seu próprio arranjo solene." (TOLKIEN, 1977, p.3-5)


O Relato dos Valar

"No início, Eru, o Único, que no idioma élfico é chamado de Ilúvatar, gerou de seu pensamento os Ainur; e eles criaram uma Música Magnífica diante dele. Nessa Música, o Mundo teve início; pois Ilúvatar tornou visível a canção dos Ainur, e eles a contemplaram como uma luz nas trevas. E muitos dentre eles se enamoraram de sua beleza, e também de sua história, cujo início e evolução testemunharam como numa visão. Então, Ilúvatar deu vida a essa visão e a instalou no meio do Vazio; e o Fogo Secreto foi enviado para que ardesse no coração do Mundo; e ele se chamou Eä." (TOLKIEN, 1977, p.15)


A ideia de criar um mundo mitológico que se origina a partir de uma música (Música Magnífica) é esplêndida e genial. Ela se mostra tão fecunda e guarda tão estreitas conexões com a filosofia de tal maneira que talvez nem o próprio Tolkien pudesse conceber. A história do pensamento sempre reservou para a música um lugar destacado e privilegiado na hierarquia das artes. Com efeito, a música foi objeto de análise filosófica, adquirindo por muitas vezes feições divinas. Uma concepção bastante forte da música no contexto filosófico é a que a considera como "a revelação de uma realidade privilegiada e divina ao homem: revelação que pode assumir a forma de conhecimento ou de sentimento" (ABBAGNANO, 1971, p.803). Dentro dessa concepção, o filósofo que mais se destaca é Schopenhauer, para quem o objeto da música é o Princípio Cósmico. Para Schopenhauer, o princípio cósmico é a "vontade de viver", sendo esta objetivada na arte. Dentre as artes, entretanto, a música é a que proporciona uma revelação imediata ou direta desse princípio cósmico. Fazendo um breve esboço da filosofia de Schopenhauer, é importante assinalar que o mesmo sofreu forte influência de seu compatriota, Immanuel Kant. Schopenhauer partiu da concepção de Kant sobre as relações cognitivas entre homem e objeto, segundo a qual tudo o que o homem conhece são os fenômenos, ou seja, somente aquilo que do objeto lhe aparece, mas o homem não chega a conhecer o objeto tal como é em si mesmo, isto é, a essência do objeto, que Kant chama de a coisa-em-si. Em Schopenhauer, os fenômenos que conhecemos são reelaborados como sendo a nossa representação, e a coisa-em-si, ou seja, a essência de todas as coisas, é a Vontade. O mundo é manifestação e expressão da Vontade; o mundo, como representação, é a Vontade objetivada. Como já foi dito, segundo Schopenhauer, o objeto da música é o Princípio Cósmico e este nada mais é do que a Vontade una e indivisível, apresentando variações apenas em seus diversos graus de expressão no mundo (a Música dos Ainur era Una e Indivisível por sua harmonia, mas as formas de expressão variavam entre os Ainur, pois eles foram criados em partes diferentes na mente de Ilúvatar). Neste ponto, acredito que algumas proximidades entre a filosofia schopenhaueriana e o mito de criação do mundo tolkieano já começaram a ficar evidentes. Em Schopenhauer, vemos a possibilidade de conhecer a essência do mundo através da via de acesso mais imediata - nosso próprio corpo; mas também temos na música um revelação imediata da Vontade. Em Tolkien, o princípio do mundo se dá pela música ("Nessa música o mundo teve início; pois Ilúvatar tornou visível a canção dos Ainur"). Agora, portanto, temos a possibilidade de estabelecer conexões ainda mais estreitas e mais interessantes com a filosofia, se partirmos para uma reelaboração do Princípio Cósmico - a Vontade - de Schopenhauer empreendida por outro filósofo alemão - Friedrich Nietzsche. Em Nietzsche, o Princípio Cósmico não é apenas a Vontade de viver, mas antes, a Vontade de Poder: a vida e o universo são um devir constante, um eterno processo de vir-a-ser, aspirando sempre ao máximo sentimento de poder possível. A breve explanação que se segue sobre a filosofia estética de Nietzsche será pontuada com algumas das passagens destacadas no texto de Tolkien para evidenciar algumas das possíveis conexões. Nietzsche insistiu no caráter prático da arte, vendo nela uma manifestação da Vontade de Poder - o Princípio Cósmico ("E aconteceu de Ilúvatar reunir todos os Ainur e lhes indicar um tema poderoso."). "Segundo Nietzsche, a arte está condicionada por um sentimento de força e de plenitude como o que se verifica na embriaguez. A beleza é a expressão de uma vontade vitoriosa, de uma harmonia de todas as vontades violentas. [...] É essencial à arte a perfeição do ser, o encaminhamento do ser para a plenitude; a arte é essencialmente a afirmação, a divinização da existência. O estado apolíneo nada mais é que a resultante extrema da embriaguez dionisíaca." (ABBAGNANO, 1971, p.430) ("Eu me sentarei para escutar; e me alegrarei, pois, através de vocês, uma grande beleza terá sido despertada em forma de melodia." [a plenitude da embriaguez dionisíaca] "Ilúvatar tornou visível a canção dos Ainur." [o encaminhamento do ser para a plenitude; afirmação e divinização da existência] "...mas suas notas triunfais pareciam ser adotadas pela outra..." [vontade vitoriosa de Ilúvatar]). É interessante notar que a gênese do mundo na mitologia tolkieana se dá por uma espécie de embriaguez dionisíaca, pois a música, desprovida de forma, é domínio do espírito dionisíaco. Os Ainur, então, "começaram a dar forma ao tema de Ilúvatar" e a partir disso fez-se a imagem do mundo, pela harmonia das formas, domínio apolíneo; efetivando-se assim o emparelhamento dos deuses. Do informe fez-se a forma. De qualquer forma, a Música Magnífica está no âmago do mundo mitológico de Tolkien. A ideia de que a partir da música informe fez-se a imagem formal do mundo, indica que toda a história do mundo mitológico de tolkien, isto é, toda a existência contida nele, pode ser revelada pela música; a música seria a revelação imediata de toda a essência do mundo que se inicou com a vontade vitoriosa de Ilúvatar, sobre a dissonância de Melkor, e com o estado de embriaguez dionísica numa formidável celebração da existência e da plenitude do ser. Vale ressaltar ainda, que a melodia que originou o mundo estava em eterna mutação ("e surgiu um som de melodias em eterna mutação"), isto é, o mundo é um devir, tudo muda, tudo está num eterno processo de vir-a-ser, aqui se expressa a transitoriedade do ser que sempre se supera (Vontade de Poder). Cabe ainda uma última observação, um pouco mais detalhada, sobre a dissonância de Melkor. É conveniente lembrar que a dissonância de Melkor não prevaleceu sobre o terceiro tema de Ilúvatar, pois este "não podia ser subjugado e acumulava poder e profundidade". Entretanto, a dissonância foi incorporada ao tema sem prejudicar seu arranjo e aí se deu a vitória da vontade de Ilúvatar sobre a de Melkor ("...mas suas notas mais triunfais pareciam ser adotadas pela outra e entremeadas em seu próprio arranjo solene"). Logo, cabe afirmar que a dissonância de Melkor representa algo no mundo, criado pela melodia que adotou suas "notas mais triunfais". A dissonância de Melkor refere-se àquilo que Nietzsche chamou de caráter meduseu da existência - a transitoriedade do ser pelo devir, as descontinuidades, o caos, os conflitos e contradições entre criação e destruição. "Há um só mundo, e ele é falso, cruel, contraditório, corruptor, sem sentido. Um mundo assim é o verdadeiro mundo. Nós precisamos da mentira para viver essa realidade." (NIETZSCHE). E, a partir daqui, se dá a cartada final. Para Nietzsche, o homem criou para si as mais variadas mentiras para tentar ofuscar o caráter meduseu do mundo - ciência, metafísica, religião. Em contraposição a este homem, Nietzsche colocou o Ubermensch (além-homem), capaz de viver sem estas mentiras. O Ubermensch é capaz de ver beleza no lado mais tenebroso da vida, pela embriaguez dionisíaca da intensificação da existência em condições extremas. A dissonância de Melkor é o caráter meduseu do mundo de Tolkien; entretanto, mesmo sendo a mais terrível dissonância, a bela música de Ilúvatar foi capaz de incorporá-la a sua beleza, no momento da mais sublime embriaguez dionisíaca ("a beleza é a expressão de uma vontade vitoriosa").

No próximo post, abordarei o segundo aspecto da obra de Tolkien, não menos interessante do que este, mas mais bem fundamentado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário